Monthly Archives: Outubro 2014

Diários gráficos (Parte II)

Na tarde de sábado, imediatamente depois do almoço, as palavras recebidas foram aquelas ditas por Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.”
Mas, se o que nos basta é ver o Pai e sabendo nós o que nos é lembrado por João – “Ninguém jamais viu a Deus” – estaremos nós condenados a viver daquilo que não nos basta?
Quem me vê, vê o Pai!
Mas, a questão é que o meu nome não é Filipe. Não me chamo Filipe. Não vi o Senhor e por isso não vejo o Pai e portanto nada me basta.
Pode a criatura viver do que não lhe basta?

Afastamo-nos, todos, para mastigar o texto e a sugestão deixada para desenhar. Agora com os materiais habituais para contemplar e se possível ler e entrever nas linhas da criação os rastos do Criador.
Desenhar a criação, a obra criada tida como boa. Desenhá-la com respeito. E desenhá-la com respeito significou para mim não ter a pretensão de agarrá-la, mas tão simplesmente quanto isto: guardar o instante como que quem toca de raspão e deixa que se escape.

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Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
(Sophia de Mello Breyener Andresen)

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Diários gráficos (Parte I)

Naquele sábado de manhã, o tempo estava fresco. O céu limpo, azul, embora ligeiramente rasgado por umas nuvens finas que se desfaziam. Eram vinte, o número de pessoas que se metiam nesta experiência, o retiro dos diários gráficos: “O Espiritual no desenho”. Pessoas muito variadas, idades diferentes, sensibilidades diversas.
No terraço daquela manhã de sábado, era lançado o primeiro exercício cuja finalidade era a experiência da simplicidade e do despojamento: “Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam” dizia-nos são mateus, um dos evangelhos.
E a proposta que vinha do Mário Linhares era tão simples e tão exigente quanto esta: desenhar única e exclusivamente com o caderno sem recorrer a qualquer instrumento habitual de escrita ou de pintura (canetas, pincéis, aguarelas).
O instinto reclama sempre uma ferramenta, um utensílio que possa desenhar. Mas, naquela manhã no meio daquela serra apenas o caderno como único objecto permitido.

Ao percorrer a estrada com o caderno na mão, deparei-me com umas laranjas caídas no chão, algumas delas já abertas. Elas poderiam servir-me de água para aguarelar aquilo que gostaria de fazer que juntamente com o pigmento de algumas flores, plantas ou folhas secas, ajudar-me-ião a contemplar com o toque os “lírios do campo”.
E foram tocados e fui tocado por este desafio da simplicidade, da contemplação e pelo deixar-me surpreender sem preocupação alguma com o resultado final.
Porque o mesmo são mateus, dizia-nos “Não vos preocupeis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem quanto ao vosso corpo com o que haveis de vestir”.
E foi isto, o que saiu.

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