Monthly Archives: Janeiro 2016

Retiro na cidade

Tudo depende da intenção, da motivação pela qual paramos. Às vezes parar pode passar por não se afastar dos lugares habituais mas, ir de lá de novo procurando outro olhar. Um caminho demorado, menos óbvio para ganhar apreço e gosto pelos lugares comuns da vida quotidiana.

diários gráficos

RETIRO NA CIDADE é uma proposta para cada um se retirar e mergulhar dentro da cidade ajudados por diferentes propostas concretas que serão sugeridas ao longo do dia. O suporte necessário e expressamente permitido é só um, o diário gráfico.
No próximo dia 20 de fevereiro (sábado) em Coimbra das 10h00 às 19h00.
Inscrições em número limitado: cumn@cumn.pt com “nome + idade + mail + telemóvel”.
Preço: 10 euros (inclui almoço, formação e o caderno). Mais informações e inscrições: cumn@cumn.pt. Uma vez feita a inscrição, cada um receberá o programa detalhado do dia.
Organização: CUMN (Centro Universitário Manuel da Nóbrega – Jesuítas) Coimbra.

Não gosto de barbeiros, de barbearias. E a razão não é nenhuma. Só a falta de pachorra. Já tenho uma boa dose de falta de paciência, é verdade, mas tudo aquilo que soe a sala de espera, desespera-me. Não tenho paciência para revistas de há dois anos e para estações de rádio de há trinta. Também, não metam conversa comigo. Não é por mal. Não tenho nada contra ninguém. Não me perguntem as horas, nem como vai o país, nem sequer qual me parece ser o melhor candidato às presidenciais. Não me perguntem porque não tenho pachorra. Nas barbearias perco a pachorra. Também não perguntem agora o que faço. Não me apetece dizer agora que sou padre. Não me apetece e não é necessário.
Em silêncio – seria aquela resposta que eu um dia gostaria de ter a coragem para o dizer – quando me perguntam como é que hoje vamos cortar o cabelo.
Desta vez se pudesse ser em silêncio, agradecia.
Mas, não posso. Seria uma barbaridade.

barbearia

Um quarto feito de livros

Sempre senti especial atracção por estantes cheias de livros.
Há momentos em que as livrarias para mim são os lugares onde, obviamente, vou para procurar ou comprar um determinado livro. Mas, há outros – e prefiro estes – momentos em que mesmo não procurando nenhum em específico, entro pelo mero gozo e satisfação que me dá ver espaços decorados por estantes de livros.
E depois em casa, uma boa conversa em salas de estar decoradas por estantes ou no quarto a ouvir música com aquelas que são as nossas estantes ou as mesinhas de cabeceira que guardam os nossos livros.

estante

“Os livros têm vida. Às vezes, à noite, apetece-me ir comer qualquer coisa à cozinha. E atravesso a sala. As estantes. Os livros. Os livros estão a dormir. Os livros bons interrogam-me, pedem-me contas: o que fizeste da tua vida?”
(António Lobo Antunes)

Baleal [3]

Encontrar e entrar num café no Baleal em pleno inverno.
As cortinas de plástico substituem agora as antigas portas de madeira do salão do velho oeste. Entramos. Café vazio. Televisão ligada. Queridas Manhãs. Mesas compostas preparadas para o almoço. Mas tudo vazio. À frente, nas traseiras. No lado.
Ao lado do lava-loiças, um pequeno rádio ligado. Em cima da tábua de cortar carne, um pão com manteiga cortado ao meio. Numa das metades, a marca de uma dentada. Uma faca. Duas facas. Imediatamente ao lado, dois kiwis. Três laranjas por descascar e uma semi-descascada. Um recipiente grande de vidro com fruta lá dentro cortada aos bocados. Uma lata aberta a escorrer calda de pêssego. Outra faca.
Apareceu. Ele.
Fui com a mão ao bolso. Quero um café.

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No fim, como nos filmes de cowboys no faroeste, tudo acabou bem, não chegou a haver porrada.

Trago comigo, passo a trazer comigo um caderno de bolso e uma caneta. Embora com algum pudor em desenhar assim à descarada, gosto de o fazer porque sim. Às vezes até me convenço que o desenho deveria ter um fim, uma finalidade que me autorize a desenhar seja qual for a frequência.

O Baleal no Inverno é um lugar apetecível, extremamente apetecível, para desenhar. Bastaria uma única mancha cinzenta para que a chuva, o vento, o nevoeiro e o mar ficassem assim tão genuinamente representados.
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