São Tomé e Príncipe (dia 1)

Por convite da ONGD Leigos para o Desenvolvimento e uma vez que sou o Assistente Espiritual do núcleo de Coimbra, estive de 6 a 13 de maio de 2016 em São Tomé e Príncipe com o objectivo de visitar e acompanhar em Exercícios Espirituais um grupo de 7 pessoas em missão.

> 6 MAIO 2016 (sexta-feira)
06h30
Levantei-me cedo, recompus a mala perguntando-me várias vezes se estava lá tudo. Passaporte. Boletim individual de saúde. Repelente. Medicação de prevenção contra a Malária. Bilhete de avião. Caneta. Caderno de desenhos. Bíblia. Seria necessário levar o estritamente necessário. O computador por exemplo, esse, ficava em Portugal!
Todos estes preparativos estariam longe de me fazer crer (como depois se virá a verificar ao longo destas crónicas) aquilo que São Tomé e Príncipe me reservaria de surpreendente para os próximos dias.

10h05
O Airbus da TAP (voo nº1527) levantou voo em direção a São Tomé, com uma breve escala em Accra, a capital do Gana. O meu lugar era o 26A (junto à janela, lá atrás na cauda do avião), mas já não sei por qual razão, fiquei no 26C junto à coxia.
Ao meu lado esquerdo um ganês que se apoderou da janela, com unhas e dentes, não consentindo a mais pequena visibilidade ao seu mais directo adversário.
stp1Do meu lado direito, do outro lado da coxia, dois estudantes de medicina dentária de Lisboa voluntários por 2 semanas em São Tomé. Lá em baixo, poucas horas depois, por debaixo dos meus pés o deserto do Saara. Extraordinário o deserto. Não há nada, não se vê nada, mas é extraordinário!

12h15
Argélia é de facto um dos países mais extensos do continente africano e o deserto ocupa 80% do seu território. Feitas as contas dará, aproximadamente, isto: o deserto argelino corresponde a 20 territórios de Portugal Continental, a Argélia é 4x o tamanho de Espanha e 3x o de França. Já a ilha de São Tomé e Príncipe ficaria aquém, a nível de área geográfica, do distrito de Lisboa. É consideravelmente mais pequeno.
Dados suficientes para perceber a megalómana desproporção que poderia estar à minha espera, assim que pisasse o território africano.
A viagem teve, portanto, estes dois magníficos e invejáveis cenários: de Lisboa a Accra, o deserto do Saara; e de Accra a São Tomé, o Golfo da Guiné.

13h37
Primeira turbulência no avião e o ganês entorna vinho para cima das minhas calças de ganga. Mas, também, nada que o tivesse incomodado.
Passados alguns minutos pede-me a caneta emprestada. Mal sabia ele que estaria a pedir das coisas mais importantes que levaria para São Tomé: a minha caneta para escrever, mas sobretudo para desenhar. Perdeu a tampa da caneta. E nem a procurou.
stp2

14h55
Aterragem no Gana. Passo para o 26A (finalmente conquistada a janela!) e no 26C senta-se uma estudante de medicina dentária, voluntária em São Tomé que não faz outra coisa senão comentar o regulamento de higiene e cuidados a ter: “Não se pode lavar os dentes com água da torneira!!” exclama ela com voz de quem já estaria disponível em regressar para Portugal.
stp3

17h00
Aterragem em São Tomé. Nas aterragens, penso sempre no que há a seguir à pista, para a eventualidade de existir algum problema na travagem: árvores, edifícios, descampado, florestas, uma parede de betão com 200 metros de altura?
Ali, naquele caso, se a aterragem não corresse bem iríamos todos dar um mergulho na Baía Ana Chaves, um dos sítios mais bonitos de São Tomé.
É impressionante como entre a pista de aterragem e a dita Baía, encontramos nada mais, nada menos que 10 metros de distância.

Com a aterragem, partiu-se uma garrafa de vinho do porto. Não era minha, mas de um são-tomense do banco da frente. Tudo começou a pingar: desde a coxia do avião, passando pela pista de aterragem, no controle de saúde, no controle de passaportes até criar uma poça de vinho na recolha de bagagens.
Perguntei-lhe se não queria um saco para vedar aqueles pingos. Respondeu-me “leve-leve!”. “Tens essa porcaria a pingar por todo o lado e ‘tás no leve-leve??” Não disse, mas pensei. O homem completamente descontraído, na maior!
Já fora do edifício do aeroporto, sou dos poucos brancos. Até que passo a ser o único.
Entretanto, chegam a Carina, a Sara e o Francisco (da ONGD – Leigos para o Desenvolvimento) que me vêm buscar. A cidade de São Tomé fica logo ali, a 7 kms do aeroporto.
Entrámos para o jipe e atravessámos aquela caótica mas deslumbrante cidade.
Por dentro, dizia “Onde é que me vim meter?!”

20h40
Jantar com os Leigos no Bairro da Boa Morte e oração comunitária.
Amanhã o acordar em São Tomé é às 05h30! Em geral, os galos cantam, o sol atravessa as paredes e as pessoas fazem barulho. Às 08h00 teremos de apanhar o Pestana para Malanza e Porto Alegre (sul de São Tomé).

22h00
Antes de me deitar fui até à varanda. A cidade adormecia e eu agradecia a Deus esta inédita experiência de pisar o território africano. Estava literalmente em terra de missão.
Lembrei-me que quando andava em arquitectura (antes de ser jesuíta) me vinha várias vezes a ideia e me fascinava de especial maneira as missões, os missionários enviados para estes lugares recônditos.
De facto, há este fascínio e permanece este fascínio, talvez agora mais purificado, menos romantizado mas sobretudo um grande desejo de ir mais longe e mais fundo. Mais simples, maior radicalidade.
Entrei e tinha no meu quarto, em volta da cama, um dispositivo de segurança máxima: uma majestosa e imponente rede mosquiteira!

stp4

 

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3 thoughts on “São Tomé e Príncipe (dia 1)

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