São Tomé e Príncipe (dia 2)

> 7 MAIO 2016 (sábado)
06h10
A claridade era intensa e o ruído lá fora tornava-se uma surpresa. São Tomé, mesmo ao fim-de-semana, acorda a esta hora.

07h45
Depois do pequeno-almoço, apanhámos o autocarro para São João dos Angolares e lá apanharíamos uma boleia com o padre João para Vila Malanza.
A viagem correu bem. Sem contratempos, nem sobressaltos! Se calhar sou eu que ao ouvir muitas histórias de viagens em África, esperaria encontrar um jipe atascado na estrada em terra batida, com as rodas de trás a patinar em falso, e dois leões a rugir um de cada lado.
Mas não. Posso vos descansar que nada disto aconteceu!

O que posso de facto assegurar é o deslumbre daquela paisagem.
Deslumbrante porque é natural, desordenada, selvagem, misteriosa, sem fim, bruta e ao mesmo tempo de uma elegância invejável!
Pelo meio éramos saudados e saudava várias aldeias. Santana. Ribeira Afonso. Dona Augusta. São João dos Angolares. Vila Malanza.
stp611h07
Vila Malanza. Entrámos, finalmente, em Malanza que faz parte da região mais pobre de São Tomé. A pobreza e a miséria estão ali as duas de mão dada e abraçadas!
As casas, apoiadas em estacas, são construídas em tábuas de madeira inevitavelmente danificadas e destruídas por este clima sempre imprevisível. Casas velhas, sujas, sobrepostas, entupidas, desgovernadas e mal arrumadas.
“Ali – pensei eu – não podem morar pessoas! Mas moram.”
Além das pessoas, porcos e galinhas.
stp7stp14

11h27
O padre João pede-me que seja eu agora a celebrar a Missa. “Faz-lhe bem!” foi o argumento usado. “Faz-me bem.” foi o que lhe respondi.
Hesitante e com receio, disse-lhe que sim.
O que pode ser dito àquela população que se apresentava, assim, diante de nós? Era este o meu único receio.

12h40
Depois da Missa, um calor tremendamente abafado! T-shirt, calções e chinelos. Durante uma semana inteira, habituei-me de tal maneira a este kit – t-shirt, calções e chinelos – que, horas antes da viagem de regresso a Portugal, ao calçar novamente os sapatos me senti, ridiculamente, pessoa ilustre.

Raramente me deu vontade para tirar fotografias em São Tomé. Optei por trazer comigo um diário gráfico, uma caneta (a única que trouxera, a tal que ia perdendo no avião) e as aguarelas.
Sentei-me na berma da estrada e comecei a desenhar um miúdo que ali estava encostado a ouvir música. Ainda lhe perguntei se o podia desenhar. Mas, não percebi o que me disse.
“Qual será a ambição de uma pessoa que vive aqui perdida no meio deste mato?”.
stp8Imediatamente, vi-me rodeado por vinte miúdos à gargalhada e a fazer troça. Ali a bondade, a verdade e a autenticidade naquelas gargalhadas.
Bem que metia conversa com eles, mas sem glória. Não nos entendíamos! Muitos deles, alguns deles ainda não falavam português.

Passado este cenário pitoresco, levantei-me e fui dar um passeio. Sozinho.
E aí, confesso que voltei a ter medo. Talvez desnecessário, mas senti.
Aqui, é muito comum as pessoas andarem com machins. Machins são uma espécie de catanas. Para mim, aquilo é uma arma e sugere-me violência ou ataque; mas para eles, é um instrumento com que cortam as folhas das palmeiras, descascam os cocos e trabalham durante todo o dia.

Tarde e fim de tarde
Logo a seguir ao almoço com a comunidade dos Leigos (Lília, Marisa, Carlota e Marta) fomos visitar os projetos, as escolas e, sobretudo, conhecer e estar com as pessoas de Porto Alegre.
Fico especialmente admirado com este trabalho exigente e paciente de criar estruturas de desenvolvimento das quais nem sempre se vêem os resultados.
Demora tempo, leva muito tempo para erguer uma estrutura consistente e continuada nesta terra, como em qualquer terra de missão.
Aqui, ao contrário do que estou habituado, o critério de medição é outro.
O da paciência.
stp11Entretanto, o senhor Teixeira (treinador do Benfica de Porto Alegre) convidou-me para entrar e para jantar. Pus logo as cartas em cima da mesa e disse-lhe que da minha parte, não cedo: sou portista! Uma travessa de peixe com arroz. E estávamos ali os dois sentados à mesa e lá fora os filhos a brincar com os talheres.
stp9Despedi-me deles, de todos.
Uma senhora, já lá ao fundo, perguntou-me se voltava para celebrar a missa. Disse-lhe que não, que estaria de regresso a São Tomé já amanhã ao final da manhã.
“Ao menos um terço senhor padre!” respondeu ela.
E combinámos rezar o terço. Está combinado! Amanhã, domingo, às 07h45 lá estarei ali de novo junto à antiga roça de Porto Alegre numa capela improvisada no meio de ruínas feita em cana de bambu coberta com folhas de palmeira.

Noite
Aqui só há electricidade (assegurada) por um gerador das 18h00 às 22h00. A partir desta hora, Malanza fecha para balanço.
O despertador das 21h55 tocou e os leigos foram buscar velas e distribuíram-nas pelos espaços da casa.
Ouvia-se música nas casas da frente. Música em alta voz – kizomba? – e de repente, o tempo congelou a vila e tudo se apagou num ápice.
Conta-se que uma vez, nesta mesma terra eram onze e tal da noite e nada! A electricidade não veio a baixo. Estranhou-se esta benesse quando se veio a saber que o senhor responsável do gerador tinha adormecido e portanto Malanza gozava de luz pela noite fora.

A meio da noite, acordei com uma grande comichão nos olhos. “Que estranho!” Levantei-me, fui à casa de banho com a laterna do telemóvel e tinha os olhos inchados.
E o pescoço vermelho.

Então e agora?

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2 thoughts on “São Tomé e Príncipe (dia 2)

  1. Maria Luis

    São Tomé, país de fé inabalável. Todos os dias às 17:30 a Sé fica repleta de povo para a missa do dia!
    Não há leões,nem gente má!
    É seguro anda na rua a qualquer hora da dia ou noite, mesmo que encontremos alguém de machim na mão! Quem sabe não será para abrir um coco e oferecer?
    A comunicação sim, às vezes torna-se difícil, falam dialeto entre eles, e quando falam o português a acentuação do R e a pronuncia aberta demais de algumas palavras deixa-nos confusos!

    Responder
  2. Pingback: São Tomé e Príncipe (dia 3) | CADERNOS DE VIAGENS

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