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A reportagem disponível aqui

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Gosto de desenhar situações cuja probabilidade de se voltarem a repetir é praticamente nula.
Desenhos destes são, no mínimo, inéditos.
Agora uma coisa tão simples quanto esta – um grupo de pessoas desconhecidas entre si, que se cruzam numa estação de comboios e depois cada um vai à sua vida – pode ser corriqueira demais, mas garanto-vos que a probabilidade de eles se voltarem a encontrar é praticamente nula.
A vida quotidiana tem destes e outros momentos que, estranhamente, estalam diante de nós como sendo irrepetíveis.

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Com Arq. Siza Vieira

Ontem, celebrou-se o 20º aniversário da Igreja de Santa Maria em Marco de Canaveses da autoria do arquitecto Siza Vieira.
Neste evento – intitulado iSiza 06 Conversas de Arquitectura – esteve presente o próprio autor do projecto juntamente com a Cardeal Gianfranco Ravasi (presidente do Pontifício Conselho para a Cultura no Vaticano), acompanhados ainda pelo cónego e teólogo Arnaldo Pinho.

Ainda não tive oportunidade, e confesso que não sei quando a terei, de fazer um apanhado do que foi dito. Talvez a própria organização deste evento o venha a fazer, por escrito ou por meios audiovisuais.
Por agora, ficamo-nos pelos meios visuais.
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Opera Don Giovanni de Wolfgang Amadeus Mozart

Quem passe por ali, pela ponte de Santa Clara e passe para o lado esquerdo do rio Mondego, ou quem teve a ocasião de subir ao miradouro do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, já se apercebeu seguramente que o Convento São Francisco (do séc.XVII) foi alvo de uma transformação e recuperação comandada pelo arquitecto Carrilho da Graça.
conventoRecentemente, por ocasião do 135 anos da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, a Orquestra Clássica do Centro proporcionou no Grande Auditório do Convento de S. Francisco (com capacidade superior a 1000 lugares) uma Ópera de Mozart e Verdi.
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São Tomé e Príncipe (dia 4)

CRÓNICAS STP: 6 maio (6ª feira), 7 maio (sábado), 8 maio (domingo)

> 9 MAIO (sexta-feira)

09h37
Hospital Central de São Tomé, balcão das urgências
Nome? Nuno.
Nuno quê? Branco.
Não percebi, pode repetir.
Nuno.
Branco.
No mesmo instante, a enfermeira leva as mãos timidamente à boca para esconder uma gargalhada.
Algum problema? Perguntei-lhe.
Branco! Exclamou ela. Você é branco e chama-se Branco?!
E riu-se desalmadamente. Eles, atrás do balcão riram-se e eu, com alguma diferença de segundos, ri-me logo a seguir. Mesmo com vontade.

E onde vive? Perguntou.
Em Coimbra. C-O-I-M… Coimbra?! Sim, Coimbra Portugal!
Não… – justificou ela, Aqui! Aqui em São Tomé, onde vive?
Não sei, respondi-lhe. Cheguei há dois dias. Não sou de cá. E, portanto, não sei.
Não sabe onde vive?! Suspeitou ela.
O que é que faz?
Sou padre.
Padre?!!? Você é padre?

Epá – pensei para os meus botões – esta conversa não está a correr nada bem! Cada resposta que dou, dá direito a prémio.

11h02
Devia ter trazido o caderno para desenhar!

11h17
Tem alguma alergia? Perguntou-me agora a médica, já enquanto me atendia.
Estava sentado numa cadeira com o braço estendido. A pressão arterial estava óptima. Febre, não tinha. Que eu me lembre, não tenho alergias! Aliás, aqui há uns atrás aconteceu-me uma coisa parecida mas não com esta dimensão.
Não sei se terá feito caso do que lhe dizia. Escreveu a receita. Duas injecções e uns comprimidos para tomar durante os próximos três dias. E atenção, não pode conduzir agora nos próximos dias.

11h33
Pergunta-me, agora, o enfermeiro enquanto inclinava a seringa e confeccionava a injecção. Qual é o braço que mais utiliza?
O esquerdo! Foi no braço esquerdo, que levei as duas vacinas antes de vir para São Tomé.
Não! Esclareceu. Não é o braço que mais utilizou para as vacinas. É destro?
Porque será que em cada pergunta que me fazem neste hospital, tenho o condão de acertar em cheio nas respostas. E sempre à primeira.
Sim sou destro!
Então vamos lá, aqui, ver se encontramos a veia.

12h05
Já dentro do jipe, começou a dar-me uma sonolência jeitosa ao ponto de não conseguir articular uma frase de jeito. Com voz enrolada e a assobiar, onde é que vou arranjar palavras para orientar este retiro.

9 a 13 de maio
Nada a apontar. Estive a orientar um retiro de silêncio. Melhorei substancialmente e a alergia desapareceu por completo.
No tempo que me restava livre, não resisti em fazer alguns apontamentos durante estes dias de silêncio.

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A última crónica de São Tomé será a próxima, a do dia 13 de maio, o dia de regresso a Portugal.

São Tomé e Príncipe (dia 3)

CRÓNICAS STP: 6 maio (6ª feira), 7 maio (sábado).

> 8 MAIO 2016 (domingo)

10h00
Será das malaguetas do jantar de ontem ou do repelente que poderá ter entrado para os olhos?
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Estávamos já dentro do jipe a caminho de Ponta Baleia onde, além de autocarros para São Tomé, se apanha o barco-transfer para o Ilhéu das Rolas, esse lugar paradisíaco onde o hemisfério norte se entrelaça com o sul.
stp17O terço, que rezámos logo no início da manhã na antiga roça de Porto Alegre, por volta das 08h15, foi uma bonita experiência. Mesmo com as contrariedades próprias desta região – a chuva torrencial e as condições precárias – a fé desta gente não verga.
Às tantas, pergunto eu, se não ando ou se não andaremos nós em geral demasiado dependentes das condições exteriores (favoráveis ou desfavoráveis) e pouco agarrados ao essencial.
São Tomé é de facto um país que saudavelmente me interroga.
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10h53
As viagens em África correm sempre bem, até ao momento em que ocorre a primeira anomalia.
Três passageiros juntamente com o condutor do autocarro que nos levariam para São Tomé, saíram para apurarem a situação.

Um furo!
Boa! Pensei timidamente com receio de me condenar por este pensamento pouco sensato.
Suspirei não pelo furo, que fique claro, mas pelo impacto que um furo em África num autocarro no meio do mato poderia ter sobre esta crónica que agora escrevo.
Ainda ponderei se valeria a pena sair para desenhar o furo, mas confesso que seria um excessivo atrevimento.
Não é furo! Afirmaram. Afinal, era do para-lamas.

O autocarro arranca.
Mas, se não é das malaguetas é do quê? Eu lavei as mãos com detergente, portanto não pode ser alergia.

O autocarro volta a parar.
Uma árvore atravessou-se no meio da estrada e ali ficou estacionada. Mas, não há nada que o “leve-leve” não resolva.

12h57
Já no bairro da Boa Morte em São Tomé, depois de uma viagem em modo de pára-arranca ao som de várias músicas sãotomenses, almoçámos apressadamente uma vez que teríamos de visitar os projetos da qual esta comunidade se responsabiliza.
De facto, conhecer estas obras, visitar estes projetos e sobretudo estar com as pessoas, veio acrescentar um novo e importante critério em tudo o que fazemos: a paciência.
Mas, mais do que resultados imediatos, ali em São Tomé (a capital) é preciso este atrevimento de lançar pacientemente as bases mesmo que nos pareçam embrionárias, acompanhando depois um processo às vezes lento de enraizamento e crescimento destas instituições.

Tarde e fim de tarde
Fomos ao Mercado Velho que fica no centro para comprar fruta e legumes.
stp19Quando íamos a caminho do Mercado, reparei nos táxis: carros amarelos, chapa amolgada, para-choques preso com corda, faróis arranjados com fita cola e duas pessoas lá dentro, sentadas no banco de trás.
Voltamos do Mercado, sensivelmente uma hora depois, e passamos novamente pela zona dos táxis. Carro amarelo, chapa amolgada, para-choques preso com corda, faróis com fita adesiva e duas pessoas lá dentro, sentadas no bando de trás.
Que fazem aquelas pessoas durante uma hora, as mesmas pessoas sentadas ali no banco de trás?
Padre Nuno – explicaram-me eles – aqui o táxi só arranca quando estiver cheio. As pessoas estão à espera que outros passageiros cheguem e então aí, o taxista arranca.

Noite
São Tomé – cidade da Trindade – Monte Café.
Deixámos a capital e fomos de jipe por ali fora até Monte Café (interior de São Tomé) ao som do Marítimo-Benfica.
A casa onde ficaríamos, durante este tempo de retiro, tem uma localização óptima. Encontra-se a mil e poucos metros de altitude. O suficiente para nos afastarmos da confusão, nos isolarmos do ruído, ganharmos distância e uma vista promissora.
Lá dentro, já tínhamos companhia à nossa espera. Fantástico! Duas aranhas com nove centímetros de diâmetro e umas baratas a desfilar ali pelo carreirinho da porta de correr.
Rede mosquiteira à volta da cama nem vê-la, arame farpado também não.
Lá vai ter de ser: dar uma de mão, com repelente, nas paredes do meu quarto e na madeira da cama.

02h37
Ao meio da noite voltei a acordar. E a conclusão diante do espelho foi clara.
Amanhã, meu caro amigo Nuno vamos passear até ao Hospital Central de São Tomé, essa magnífica unidade hospitalar.