São Tomé e Príncipe (dia 4)

CRÓNICAS STP: 6 maio (6ª feira), 7 maio (sábado), 8 maio (domingo)

> 9 MAIO (sexta-feira)

09h37
Hospital Central de São Tomé, balcão das urgências
Nome? Nuno.
Nuno quê? Branco.
Não percebi, pode repetir.
Nuno.
Branco.
No mesmo instante, a enfermeira leva as mãos timidamente à boca para esconder uma gargalhada.
Algum problema? Perguntei-lhe.
Branco! Exclamou ela. Você é branco e chama-se Branco?!
E riu-se desalmadamente. Eles, atrás do balcão riram-se e eu, com alguma diferença de segundos, ri-me logo a seguir. Mesmo com vontade.

E onde vive? Perguntou.
Em Coimbra. C-O-I-M… Coimbra?! Sim, Coimbra Portugal!
Não… – justificou ela, Aqui! Aqui em São Tomé, onde vive?
Não sei, respondi-lhe. Cheguei há dois dias. Não sou de cá. E, portanto, não sei.
Não sabe onde vive?! Suspeitou ela.
O que é que faz?
Sou padre.
Padre?!!? Você é padre?

Epá – pensei para os meus botões – esta conversa não está a correr nada bem! Cada resposta que dou, dá direito a prémio.

11h02
Devia ter trazido o caderno para desenhar!

11h17
Tem alguma alergia? Perguntou-me agora a médica, já enquanto me atendia.
Estava sentado numa cadeira com o braço estendido. A pressão arterial estava óptima. Febre, não tinha. Que eu me lembre, não tenho alergias! Aliás, aqui há uns atrás aconteceu-me uma coisa parecida mas não com esta dimensão.
Não sei se terá feito caso do que lhe dizia. Escreveu a receita. Duas injecções e uns comprimidos para tomar durante os próximos três dias. E atenção, não pode conduzir agora nos próximos dias.

11h33
Pergunta-me, agora, o enfermeiro enquanto inclinava a seringa e confeccionava a injecção. Qual é o braço que mais utiliza?
O esquerdo! Foi no braço esquerdo, que levei as duas vacinas antes de vir para São Tomé.
Não! Esclareceu. Não é o braço que mais utilizou para as vacinas. É destro?
Porque será que em cada pergunta que me fazem neste hospital, tenho o condão de acertar em cheio nas respostas. E sempre à primeira.
Sim sou destro!
Então vamos lá, aqui, ver se encontramos a veia.

12h05
Já dentro do jipe, começou a dar-me uma sonolência jeitosa ao ponto de não conseguir articular uma frase de jeito. Com voz enrolada e a assobiar, onde é que vou arranjar palavras para orientar este retiro.

9 a 13 de maio
Nada a apontar. Estive a orientar um retiro de silêncio. Melhorei substancialmente e a alergia desapareceu por completo.
No tempo que me restava livre, não resisti em fazer alguns apontamentos durante estes dias de silêncio.

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A última crónica de São Tomé será a próxima, a do dia 13 de maio, o dia de regresso a Portugal.

São Tomé e Príncipe (dia 3)

CRÓNICAS STP: 6 maio (6ª feira), 7 maio (sábado).

> 8 MAIO 2016 (domingo)

10h00
Será das malaguetas do jantar de ontem ou do repelente que poderá ter entrado para os olhos?
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Estávamos já dentro do jipe a caminho de Ponta Baleia onde, além de autocarros para São Tomé, se apanha o barco-transfer para o Ilhéu das Rolas, esse lugar paradisíaco onde o hemisfério norte se entrelaça com o sul.
stp17O terço, que rezámos logo no início da manhã na antiga roça de Porto Alegre, por volta das 08h15, foi uma bonita experiência. Mesmo com as contrariedades próprias desta região – a chuva torrencial e as condições precárias – a fé desta gente não verga.
Às tantas, pergunto eu, se não ando ou se não andaremos nós em geral demasiado dependentes das condições exteriores (favoráveis ou desfavoráveis) e pouco agarrados ao essencial.
São Tomé é de facto um país que saudavelmente me interroga.
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10h53
As viagens em África correm sempre bem, até ao momento em que ocorre a primeira anomalia.
Três passageiros juntamente com o condutor do autocarro que nos levariam para São Tomé, saíram para apurarem a situação.

Um furo!
Boa! Pensei timidamente com receio de me condenar por este pensamento pouco sensato.
Suspirei não pelo furo, que fique claro, mas pelo impacto que um furo em África num autocarro no meio do mato poderia ter sobre esta crónica que agora escrevo.
Ainda ponderei se valeria a pena sair para desenhar o furo, mas confesso que seria um excessivo atrevimento.
Não é furo! Afirmaram. Afinal, era do para-lamas.

O autocarro arranca.
Mas, se não é das malaguetas é do quê? Eu lavei as mãos com detergente, portanto não pode ser alergia.

O autocarro volta a parar.
Uma árvore atravessou-se no meio da estrada e ali ficou estacionada. Mas, não há nada que o “leve-leve” não resolva.

12h57
Já no bairro da Boa Morte em São Tomé, depois de uma viagem em modo de pára-arranca ao som de várias músicas sãotomenses, almoçámos apressadamente uma vez que teríamos de visitar os projetos da qual esta comunidade se responsabiliza.
De facto, conhecer estas obras, visitar estes projetos e sobretudo estar com as pessoas, veio acrescentar um novo e importante critério em tudo o que fazemos: a paciência.
Mas, mais do que resultados imediatos, ali em São Tomé (a capital) é preciso este atrevimento de lançar pacientemente as bases mesmo que nos pareçam embrionárias, acompanhando depois um processo às vezes lento de enraizamento e crescimento destas instituições.

Tarde e fim de tarde
Fomos ao Mercado Velho que fica no centro para comprar fruta e legumes.
stp19Quando íamos a caminho do Mercado, reparei nos táxis: carros amarelos, chapa amolgada, para-choques preso com corda, faróis arranjados com fita cola e duas pessoas lá dentro, sentadas no banco de trás.
Voltamos do Mercado, sensivelmente uma hora depois, e passamos novamente pela zona dos táxis. Carro amarelo, chapa amolgada, para-choques preso com corda, faróis com fita adesiva e duas pessoas lá dentro, sentadas no bando de trás.
Que fazem aquelas pessoas durante uma hora, as mesmas pessoas sentadas ali no banco de trás?
Padre Nuno – explicaram-me eles – aqui o táxi só arranca quando estiver cheio. As pessoas estão à espera que outros passageiros cheguem e então aí, o taxista arranca.

Noite
São Tomé – cidade da Trindade – Monte Café.
Deixámos a capital e fomos de jipe por ali fora até Monte Café (interior de São Tomé) ao som do Marítimo-Benfica.
A casa onde ficaríamos, durante este tempo de retiro, tem uma localização óptima. Encontra-se a mil e poucos metros de altitude. O suficiente para nos afastarmos da confusão, nos isolarmos do ruído, ganharmos distância e uma vista promissora.
Lá dentro, já tínhamos companhia à nossa espera. Fantástico! Duas aranhas com nove centímetros de diâmetro e umas baratas a desfilar ali pelo carreirinho da porta de correr.
Rede mosquiteira à volta da cama nem vê-la, arame farpado também não.
Lá vai ter de ser: dar uma de mão, com repelente, nas paredes do meu quarto e na madeira da cama.

02h37
Ao meio da noite voltei a acordar. E a conclusão diante do espelho foi clara.
Amanhã, meu caro amigo Nuno vamos passear até ao Hospital Central de São Tomé, essa magnífica unidade hospitalar.

São Tomé e Príncipe (dia 2)

> 7 MAIO 2016 (sábado)
06h10
A claridade era intensa e o ruído lá fora tornava-se uma surpresa. São Tomé, mesmo ao fim-de-semana, acorda a esta hora.

07h45
Depois do pequeno-almoço, apanhámos o autocarro para São João dos Angolares e lá apanharíamos uma boleia com o padre João para Vila Malanza.
A viagem correu bem. Sem contratempos, nem sobressaltos! Se calhar sou eu que ao ouvir muitas histórias de viagens em África, esperaria encontrar um jipe atascado na estrada em terra batida, com as rodas de trás a patinar em falso, e dois leões a rugir um de cada lado.
Mas não. Posso vos descansar que nada disto aconteceu!

O que posso de facto assegurar é o deslumbre daquela paisagem.
Deslumbrante porque é natural, desordenada, selvagem, misteriosa, sem fim, bruta e ao mesmo tempo de uma elegância invejável!
Pelo meio éramos saudados e saudava várias aldeias. Santana. Ribeira Afonso. Dona Augusta. São João dos Angolares. Vila Malanza.
stp611h07
Vila Malanza. Entrámos, finalmente, em Malanza que faz parte da região mais pobre de São Tomé. A pobreza e a miséria estão ali as duas de mão dada e abraçadas!
As casas, apoiadas em estacas, são construídas em tábuas de madeira inevitavelmente danificadas e destruídas por este clima sempre imprevisível. Casas velhas, sujas, sobrepostas, entupidas, desgovernadas e mal arrumadas.
“Ali – pensei eu – não podem morar pessoas! Mas moram.”
Além das pessoas, porcos e galinhas.
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11h27
O padre João pede-me que seja eu agora a celebrar a Missa. “Faz-lhe bem!” foi o argumento usado. “Faz-me bem.” foi o que lhe respondi.
Hesitante e com receio, disse-lhe que sim.
O que pode ser dito àquela população que se apresentava, assim, diante de nós? Era este o meu único receio.

12h40
Depois da Missa, um calor tremendamente abafado! T-shirt, calções e chinelos. Durante uma semana inteira, habituei-me de tal maneira a este kit – t-shirt, calções e chinelos – que, horas antes da viagem de regresso a Portugal, ao calçar novamente os sapatos me senti, ridiculamente, pessoa ilustre.

Raramente me deu vontade para tirar fotografias em São Tomé. Optei por trazer comigo um diário gráfico, uma caneta (a única que trouxera, a tal que ia perdendo no avião) e as aguarelas.
Sentei-me na berma da estrada e comecei a desenhar um miúdo que ali estava encostado a ouvir música. Ainda lhe perguntei se o podia desenhar. Mas, não percebi o que me disse.
“Qual será a ambição de uma pessoa que vive aqui perdida no meio deste mato?”.
stp8Imediatamente, vi-me rodeado por vinte miúdos à gargalhada e a fazer troça. Ali a bondade, a verdade e a autenticidade naquelas gargalhadas.
Bem que metia conversa com eles, mas sem glória. Não nos entendíamos! Muitos deles, alguns deles ainda não falavam português.

Passado este cenário pitoresco, levantei-me e fui dar um passeio. Sozinho.
E aí, confesso que voltei a ter medo. Talvez desnecessário, mas senti.
Aqui, é muito comum as pessoas andarem com machins. Machins são uma espécie de catanas. Para mim, aquilo é uma arma e sugere-me violência ou ataque; mas para eles, é um instrumento com que cortam as folhas das palmeiras, descascam os cocos e trabalham durante todo o dia.

Tarde e fim de tarde
Logo a seguir ao almoço com a comunidade dos Leigos (Lília, Marisa, Carlota e Marta) fomos visitar os projetos, as escolas e, sobretudo, conhecer e estar com as pessoas de Porto Alegre.
Fico especialmente admirado com este trabalho exigente e paciente de criar estruturas de desenvolvimento das quais nem sempre se vêem os resultados.
Demora tempo, leva muito tempo para erguer uma estrutura consistente e continuada nesta terra, como em qualquer terra de missão.
Aqui, ao contrário do que estou habituado, o critério de medição é outro.
O da paciência.
stp11Entretanto, o senhor Teixeira (treinador do Benfica de Porto Alegre) convidou-me para entrar e para jantar. Pus logo as cartas em cima da mesa e disse-lhe que da minha parte, não cedo: sou portista! Uma travessa de peixe com arroz. E estávamos ali os dois sentados à mesa e lá fora os filhos a brincar com os talheres.
stp9Despedi-me deles, de todos.
Uma senhora, já lá ao fundo, perguntou-me se voltava para celebrar a missa. Disse-lhe que não, que estaria de regresso a São Tomé já amanhã ao final da manhã.
“Ao menos um terço senhor padre!” respondeu ela.
E combinámos rezar o terço. Está combinado! Amanhã, domingo, às 07h45 lá estarei ali de novo junto à antiga roça de Porto Alegre numa capela improvisada no meio de ruínas feita em cana de bambu coberta com folhas de palmeira.

Noite
Aqui só há electricidade (assegurada) por um gerador das 18h00 às 22h00. A partir desta hora, Malanza fecha para balanço.
O despertador das 21h55 tocou e os leigos foram buscar velas e distribuíram-nas pelos espaços da casa.
Ouvia-se música nas casas da frente. Música em alta voz – kizomba? – e de repente, o tempo congelou a vila e tudo se apagou num ápice.
Conta-se que uma vez, nesta mesma terra eram onze e tal da noite e nada! A electricidade não veio a baixo. Estranhou-se esta benesse quando se veio a saber que o senhor responsável do gerador tinha adormecido e portanto Malanza gozava de luz pela noite fora.

A meio da noite, acordei com uma grande comichão nos olhos. “Que estranho!” Levantei-me, fui à casa de banho com a laterna do telemóvel e tinha os olhos inchados.
E o pescoço vermelho.

Então e agora?

São Tomé e Príncipe (dia 1)

Por convite da ONGD Leigos para o Desenvolvimento e uma vez que sou o Assistente Espiritual do núcleo de Coimbra, estive de 6 a 13 de maio de 2016 em São Tomé e Príncipe com o objectivo de visitar e acompanhar em Exercícios Espirituais um grupo de 7 pessoas em missão.

> 6 MAIO 2016 (sexta-feira)
06h30
Levantei-me cedo, recompus a mala perguntando-me várias vezes se estava lá tudo. Passaporte. Boletim individual de saúde. Repelente. Medicação de prevenção contra a Malária. Bilhete de avião. Caneta. Caderno de desenhos. Bíblia. Seria necessário levar o estritamente necessário. O computador por exemplo, esse, ficava em Portugal!
Todos estes preparativos estariam longe de me fazer crer (como depois se virá a verificar ao longo destas crónicas) aquilo que São Tomé e Príncipe me reservaria de surpreendente para os próximos dias.

10h05
O Airbus da TAP (voo nº1527) levantou voo em direção a São Tomé, com uma breve escala em Accra, a capital do Gana. O meu lugar era o 26A (junto à janela, lá atrás na cauda do avião), mas já não sei por qual razão, fiquei no 26C junto à coxia.
Ao meu lado esquerdo um ganês que se apoderou da janela, com unhas e dentes, não consentindo a mais pequena visibilidade ao seu mais directo adversário.
stp1Do meu lado direito, do outro lado da coxia, dois estudantes de medicina dentária de Lisboa voluntários por 2 semanas em São Tomé. Lá em baixo, poucas horas depois, por debaixo dos meus pés o deserto do Saara. Extraordinário o deserto. Não há nada, não se vê nada, mas é extraordinário!

12h15
Argélia é de facto um dos países mais extensos do continente africano e o deserto ocupa 80% do seu território. Feitas as contas dará, aproximadamente, isto: o deserto argelino corresponde a 20 territórios de Portugal Continental, a Argélia é 4x o tamanho de Espanha e 3x o de França. Já a ilha de São Tomé e Príncipe ficaria aquém, a nível de área geográfica, do distrito de Lisboa. É consideravelmente mais pequeno.
Dados suficientes para perceber a megalómana desproporção que poderia estar à minha espera, assim que pisasse o território africano.
A viagem teve, portanto, estes dois magníficos e invejáveis cenários: de Lisboa a Accra, o deserto do Saara; e de Accra a São Tomé, o Golfo da Guiné.

13h37
Primeira turbulência no avião e o ganês entorna vinho para cima das minhas calças de ganga. Mas, também, nada que o tivesse incomodado.
Passados alguns minutos pede-me a caneta emprestada. Mal sabia ele que estaria a pedir das coisas mais importantes que levaria para São Tomé: a minha caneta para escrever, mas sobretudo para desenhar. Perdeu a tampa da caneta. E nem a procurou.
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14h55
Aterragem no Gana. Passo para o 26A (finalmente conquistada a janela!) e no 26C senta-se uma estudante de medicina dentária, voluntária em São Tomé que não faz outra coisa senão comentar o regulamento de higiene e cuidados a ter: “Não se pode lavar os dentes com água da torneira!!” exclama ela com voz de quem já estaria disponível em regressar para Portugal.
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17h00
Aterragem em São Tomé. Nas aterragens, penso sempre no que há a seguir à pista, para a eventualidade de existir algum problema na travagem: árvores, edifícios, descampado, florestas, uma parede de betão com 200 metros de altura?
Ali, naquele caso, se a aterragem não corresse bem iríamos todos dar um mergulho na Baía Ana Chaves, um dos sítios mais bonitos de São Tomé.
É impressionante como entre a pista de aterragem e a dita Baía, encontramos nada mais, nada menos que 10 metros de distância.

Com a aterragem, partiu-se uma garrafa de vinho do porto. Não era minha, mas de um são-tomense do banco da frente. Tudo começou a pingar: desde a coxia do avião, passando pela pista de aterragem, no controle de saúde, no controle de passaportes até criar uma poça de vinho na recolha de bagagens.
Perguntei-lhe se não queria um saco para vedar aqueles pingos. Respondeu-me “leve-leve!”. “Tens essa porcaria a pingar por todo o lado e ‘tás no leve-leve??” Não disse, mas pensei. O homem completamente descontraído, na maior!
Já fora do edifício do aeroporto, sou dos poucos brancos. Até que passo a ser o único.
Entretanto, chegam a Carina, a Sara e o Francisco (da ONGD – Leigos para o Desenvolvimento) que me vêm buscar. A cidade de São Tomé fica logo ali, a 7 kms do aeroporto.
Entrámos para o jipe e atravessámos aquela caótica mas deslumbrante cidade.
Por dentro, dizia “Onde é que me vim meter?!”

20h40
Jantar com os Leigos no Bairro da Boa Morte e oração comunitária.
Amanhã o acordar em São Tomé é às 05h30! Em geral, os galos cantam, o sol atravessa as paredes e as pessoas fazem barulho. Às 08h00 teremos de apanhar o Pestana para Malanza e Porto Alegre (sul de São Tomé).

22h00
Antes de me deitar fui até à varanda. A cidade adormecia e eu agradecia a Deus esta inédita experiência de pisar o território africano. Estava literalmente em terra de missão.
Lembrei-me que quando andava em arquitectura (antes de ser jesuíta) me vinha várias vezes a ideia e me fascinava de especial maneira as missões, os missionários enviados para estes lugares recônditos.
De facto, há este fascínio e permanece este fascínio, talvez agora mais purificado, menos romantizado mas sobretudo um grande desejo de ir mais longe e mais fundo. Mais simples, maior radicalidade.
Entrei e tinha no meu quarto, em volta da cama, um dispositivo de segurança máxima: uma majestosa e imponente rede mosquiteira!

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Retiro na cidade

Tudo depende da intenção, da motivação pela qual paramos. Às vezes parar pode passar por não se afastar dos lugares habituais mas, ir de lá de novo procurando outro olhar. Um caminho demorado, menos óbvio para ganhar apreço e gosto pelos lugares comuns da vida quotidiana.

diários gráficos

RETIRO NA CIDADE é uma proposta para cada um se retirar e mergulhar dentro da cidade ajudados por diferentes propostas concretas que serão sugeridas ao longo do dia. O suporte necessário e expressamente permitido é só um, o diário gráfico.
No próximo dia 20 de fevereiro (sábado) em Coimbra das 10h00 às 19h00.
Inscrições em número limitado: cumn@cumn.pt com “nome + idade + mail + telemóvel”.
Preço: 10 euros (inclui almoço, formação e o caderno). Mais informações e inscrições: cumn@cumn.pt. Uma vez feita a inscrição, cada um receberá o programa detalhado do dia.
Organização: CUMN (Centro Universitário Manuel da Nóbrega – Jesuítas) Coimbra.

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Barbaridades numa barbearia

Não gosto de barbeiros, de barbearias. E a razão não é nenhuma. Só a falta de pachorra. Já tenho uma boa dose de falta de paciência, é verdade, mas tudo aquilo que soe a sala de espera, desespera-me. Não tenho paciência para revistas de há dois anos e para estações de rádio de há trinta. Também, não metam conversa comigo. Não é por mal. Não tenho nada contra ninguém. Não me perguntem as horas, nem como vai o país, nem sequer qual me parece ser o melhor candidato às presidenciais. Não me perguntem porque não tenho pachorra. Nas barbearias perco a pachorra. Também não perguntem agora o que faço. Não me apetece dizer agora que sou padre. Não me apetece e não é necessário.
Em silêncio – seria aquela resposta que eu um dia gostaria de ter a coragem para o dizer – quando me perguntam como é que hoje vamos cortar o cabelo.
Desta vez se pudesse ser em silêncio, agradecia.
Mas, não posso. Seria uma barbaridade.

barbearia